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6.1.08

Telegram

Faltam poucos dias para a inauguração da segunda exposição da Galeria P4Photography. É na quinta-feira, dia 10 de Janeiro, pelas 19 horas. Chama-se Telegram e mostra-nos 14 imagens de Filipe Casaca e Nuno Direitinho, seleccionadas, sequenciadas e "emparelhadas" pela equipa da P4. Tal como aconteceu com Atlas, será editado um livro para complementar a exposição (50 exemplares numerados). O texto escrito para esse livro está pronto e podem lê-lo aqui em baixo (há ainda uma contribuição do António Júlio Duarte). Seguindo a política da casa, foi escrito em inglês. Se houver tempo faremos uma tradução.
(Quem ainda não visitou Atlas tem agora poucos dias para o fazer.)

Leaving and Returning Home

The first thing God created was the journey; then came doubt and nostalgia. With this sentence, Theo Angelopolous summarizes one of the founding epics of western civilization. With the Trojan War over, Ulysses was ready to return to Ithaca but a sequence of unexpected events kept him away from home for another ten years. After many stops and incidents, Ulysses reached Ogygia island. There he became Calypso’s lover and her prisoner. Despite promises of eternal life, despite being attracted to Calypso, and even though he happily shared her bed, Ulysses never forgot Ithaca and mourned every day for his lost home and family. After seven years of confinement, not yet convinced of Calypso’s love and by Ogygia’s vita beata, Ulysses was free to leave the island and return to Ithaca. Between a pleasant life at Ogygia and a dangerous journey back home, Ulysses chose home. As Milan Kundera wrote, Instead of the passionate exploration of the unknown (the adventure), he preferred the apotheosis of the familiar (the return). Instead of the infinite (because any adventure is supposed to go on forever), he preferred the end (because returning home is a reconciliation with life’s finitude).

When Francis Frith captured the exotic ambience of Middle East lands in his celebrated albumen prints, the journey became one of photography’s central themes. If the portrait was sought as a way of keeping and remembering the faces of loved ones (or simply lost youth), travel photos were artifacts that astonished the cosmopolitan citizens of the world centers of the photographic art: London, Paris, New York, Boston. In some countries, due to their geographic situation, history and culture, photographers engaged more seriously with the journey’s theme. English photographers like Frith took advantage of their country’s presence in the Middle East to record powerful images of the mythical civilizations that had flourished on the rich eastern Mediterranean lands. The United States, with its overwhelming and wild open spaces, saw the birth of landscape photography, via the eyes of such artists as Carleton E. Watkins, Timothy O’Sullivan or the Portuguese jew Solomon Nunes de Carvalho, amongst many others. (Later Ansel Adams reclaimed those pioneers’ inheritance). In the 20th century, Walker Evans, Robert Frank and Lee Friedlander followed the same trails, but this time they did it by car. Finally, if there is such a thing as a Portuguese photography, the journey is undoubtedly its core.

Filipe Casaca and Nuno Direitinho belong to a generation that grew up in an age when travelling is no longer a luxury, but became another middle-class conquest, instead. The world has become smaller: everyone is connected by broadband internet and mobile phones. Remote places became easily accessible and Ulysses’ anxiety and long journey back home do not make sense any longer. Homesickness, nostalgia, saudade: these feelings have not vanished from humanity’s soul; but they are now more easily appeased.

Does this mean that the journey that began in the sands of Egypt is over? Maybe it is over or maybe not. The two defining pictures of the pyramids in Paulo Nozolino’s Penumbra show that the world is infinite and that only the spectators’ imagination and creativity may end.

Photography has not returned home. It is just the concept of home and private space that have expanded their limits. Telegram moves along this blurred borderline, showing us not only the dialogue between the authors’ images, but also their engagement with this contemporary and broad sense of home.

20.11.07

Alambiques e Alquimistas

No próximo dia 24, pelas 18 horas, o João Mariano apresenta, na P4Photography, o seu mais recente livro de fotografia: Alambiques e Alquimistas. Estão todos convidados.



Soube há pouco que uma albumina da Catedral de Toledo, realizada por J. Laurent (ver texto anterior), faz parte próximo leilão da P4Photography, que terá lugar no número 16 da Rua dos Navegantes no próximo dia 6 de Dezembro.


J. Laurent, Catedral de Toledo

Carlos Miguel Fernandes

23.10.07

Prateleira — Mementomori 1990-2000 (ou, Os Dois Mercados)

Num país estrangeiro, a busca por livros de fotografia está quase sempre condicionada pela língua dos textos de introdução. O critério aumenta de importância quando se visitam lugares onde é usado um alfabeto que nem sequer permite identificar o nome do fotógrafo, e onde, por vezes, o viajante não conhece os intérpretes basilares da fotografia local. A Coreia do Sul é, para mim, um desses países. Quando visitei pela primeira vez os alfarrabistas de Busan — agregados em meia dúzia de pequenas ruas a poucas centenas de metros de distância do famoso mercado de peixe — não sabia o que ia encontrar. No final da viagem olhei para a mala e vi uma boa colheita (com Melville a dominar, como não podia deixar de ser numa cidade portuária). Mas só lá estava um livro de fotografia. Chama-se Mementomori 1990-2000 e mostra-nos o trabalho do fotógrafo coreano Lee Sang Ill. Veio comigo porque, no meio de alguns livros de fotografia, Mementomori era o único que tinha uma tradução inglesa do prefácio. Ou, pelo menos, parecia ter, após uma leitura apressada. Mais tarde, olhei com outra atenção. Vamos ler o primeiro parágrafo.

A photographer, Lee, Sang Ill, to show social valuable situation and life emotion of late works formalize ordinary life through coexistence and impact. Also his works to an industrial complex area people of lives explain nature of photography. He appeals a specificity of contemporary art. “in situ”; with emphasizing unique of the place. A talking pictures is an expression of personal with social value and judgment. Moreover it should regard a new to combine rational activities of people and usual value of life.
Thus, he becomes a witness to represent various objectivities. Eventually he is affected by contemporary trends of thought value and politics and seeks photo-realism of lenses as firming documentary with various styles of his photos.


Este texto faz lembrar o quotidiano de um expatriado nas ruas coreanas, onde pouca gente sabe falar inglês e quem sabe...não sabe! O esforço do cidadão comum é enorme, mas, exceptuando alguns casos (profissionais do turismo na capital, por exemplo), o discurso parece saído de um tradutor automático de páginas da internet. Tal como o prefácio de Mementomori.

Mas mesmo no estranho texto transcrito em cima, é possível discernir uma estratégia comum nos meios artísticos actuais. Note-se como o autor (o curador da exposição que o livro registou) tenta enquadrar o trabalho de Lee Sang Ill nas correntes da Arte Contemporânea. Olhando para as imagens de Mementomori (e que nos mostram dez anos de trabalho do fotógrafo) encontramos uma linha claramente documental, até num sentido muito clássico do termo. Predomínio do retrato inserido no ambiente do retratado, utilização frequente da grande angular, temas fortes e emotivos. Um estilo que, Sebastião Salgado e World Press Photo à parte, estamos cada vez mais habituados a ver em livros, revistas ou jornais, e não nas paredes de uma galeria. Mas esta passagem de Fotografia para o patamar da Arte Contemporânea, mesmo quando é feita de forma claramente forçada, implica mais um zero na venda de uma peça. A Fotografia move-se entre dois mercados claramente distintos, e estar de um lado ou do outro da barricada só depende da forma como uma obra é promovida, e não do objecto em si. E no mercado encontramos sempre a lei da oferta e da procura.

Lee Sang Ill

Mas voltemos atrás. Eu disse “passagem forçada”? Há outra forma de ver a coisa: a Arte Contemporânea (no sentido não literal do termo, claro) é um conceito vazio alimentado por uma clientela cada vez mais desenraizada da sua cultura e viciada na arte popular. São os efeitos da democratização do acesso à cultura, sobre os quais não vale a pena estar aqui a moralizar. Basta apenas dizer que, num ambiente de contornos tão levianos, é fácil transportar uma obra de um lado para o outro da fronteira. Não é o objecto que conta, mas apenas o discurso. E por vezes é suficiente aumentar a dimensão de uma peça para que esta abandone o frágil estatuto de “fotografia” e passe a ser admirada como uma obra de Arte Contemporânea.

Carlos M. Fernandes, Seul, 2007

Por isso, ao contrário do que a minha expressão “passagem forçada” pode dar a entender, penso que o curador de Lee Sang Ill faz muito bem quando tenta arrastar um trabalho de carácter marcadamente fotográfico (hoje já não há fotógrafos, há artistas que usam a fotografia!) para um território estranho. Goste-se ou não do estilo, pelo menos injecta um pouco de vida num ambiente que revela sintomas de indolência e superficialidade. A fotografia documental e a fotografia de arquitectura/”paisagem urbana” são talvez duas das grandes forças que podem agitar a Arte Contemporânea, retirá-la deste marasmo, e ao mesmo tempo aliviar a Fotografia das grilhetas que alguns dos seus agentes lhe impuseram. Como diz um amigo, bom entendedor e amante da arte fotográfica como poucos em Portugal, uma “fotografia é apenas um pedaço de papel”. Se desmistificarmos esse pedaço de papel dar-lhe-emos, paradoxalmente, o valor que tem perdido nas últimas décadas. Basta varrer o lixo em redor.

Carlos Miguel Fernandes

8.8.07

Livros

O livro I-S-T 95-75-15 está agora à venda na Potássio 4. Lá encontrarão também Kaluptein e outros livros de fotografia editados pela IST Press, tal como ist, de Augusto Alves da Silva, e Rocks & Stones, o excelente catálogo da exposição com o mesmo nome, comissariada por Jorge Calado em 2003. Vejam também os livros do Rui Fonseca e do João Mariano. E outros. Todos.

Carlos Miguel Fernandes, Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2004 (de I-S-T 95-75-15)


Carlos Miguel Fernandes

2.8.07

Prateleira — Mathew Brady - An Historian with a Camera

(Excerto de um texto publicado no No Mundo. Deixo aqui a parte que interessa ao Nafarricos.)

"Comprei Mathew Brady — An Historian with a Camera, de James B. Horan, na Strand de Nova Iorque, uma livraria de sonho onde podemos encontrar álbuns de fotografia novos a preço de terceira ou quarta mão. Foi lá que também encontrei outras semi-preciosidades (ah, se fossem primeiras edições!), tais como A Guide to Better Photography, de Berenice Abbot (1947, primeira edição de 1941), e o célebre The Negative, de Ansel Adams (1955, primeira edição de 1948). Este Mathew Brady — An Historian with a Camera parece ser uma primeira edição, mas não tem o estatuto que têm os livros de Abbot e Adams. Mas é bom livro, que nos conta a história da vida de Mathew Brady, o grande retratista da América, um homem que nos deixou um legado inestimável, e que arriscou tudo, depois de uma consagrada carreira, para retratar a Guerra Civil americana. Sem os milhares de negativos de Brady seríamos muito mais pobres e ignorantes. Infelizmente, o trabalho de Solomon Nunes Carvalho, um judeu de ascendência portuguesa que trabalhou com Mathew Brady, não teve a mesma sorte. Carvalho atravessou o Oeste selvagem (1853-54) com uma câmara, e conta-se que edificou um trabalho épico. Tudo se perdeu num incêndio e Solomon Nunes Carvalho, que esteve perto de figurar na anais da História da Fotografia, acabou por resignar-se a ser nota de rodapé."

Mathew Brady, Lincoln, 1864


(Sobre Solomon Nunes, aconselho a leitura deste texto publicado há uns meses no Grand Monde.)
Carlos Miguel Fernandes

16.6.07

As Livrarias de Berlim

Vamos começar pela Exlibris. Podem encontrá-la na Reinhardtstrasse, uma rua perpendicular à Friedrichstrasse, na extremidade norte da extensa via que liga o Kreuzberg ao Mitte. (Confesso o meu fascínio pela zona de confluência entre a Friedrichstrasse e a Oranienburger Strasse, e tenho as minhas razões.) Já conhecia a Exlibris de outras viagens, e de lá veio um livro de August Sander (1876-1964). Desta vez encontrei a livraria numa simpática fase de promoção do seu extenso catálogo de livros de fotografia.

De Berlin — Photographien 1880-1930 já falei aqui em baixo. O livro acolhe cem fotografias de Berlim tiradas entre 1871 e 1931 por F. Albert Schwartz (1836-1906), Hermann Rückwardt (1845-1919), Waldemar Titzenthaler (1869-1937) e Max Missmann (1874-1945), entre outros fotógrafos, alguns, provavelmente, anónimos. São retratos de uma cidade que já não existe, um lugar burguês, arrebatador e vibrante que começou a definhar em 1933, e que morreu em 1944 sob a espada impiedosa do Aliados. Podia ter ressuscitado, como tantas outras cidades, arrasadas e reerguidas, numa espécie de hino perverso à estupidez e grandeza humanas. Mas ficou refém da estupidez durante mais quarenta anos. Em 1989 o Muro desapareceu, e uma nova cidade começou a nascer a partir da longa faixa urbana que antes era “terra de ninguém”. É essa cidade em metamorfose que Gabriele Basilico nos mostra no livro Berlin, editado em 2002 (as imagens são de 2001), e prémio Photoespaña do melhor livro de fotografia desse ano.
Goste-se ou não do trabalho de Gabriele Basilico (e eu gosto!), temos de reconhecer que Berlin é um objecto belíssimo que mereceu o prémio Photoespaña (o mesmo que este ano foi atribuído ao português Daniel Blaufuks). Capa dura, lombada elegante e 138 fotografias reproduzidas de forma irrepreensível. E o prefácio é, pelo menos, original: uma conversa telefónica entre Basilico, Hans Ulrich Obrist e Stefano Boeri. Nas fotografias, Gabriele Basilico mostra-nos uma cidade que só tem seis anos mas já pertence ao passado. É assim com as cidades em construção: o que se fotografa hoje já é matéria de estudo amanhã.

Eterna parece ser a Nova Iorque de David Bradford, um taxista-fotógrafo, que em 1996 editou Drive-By Shootings — Photographs by a New York Taxi Driver. Bradford leva-nos numa longa viagem pelas ruas de Nova Iorque, e as janelas do seu carro são como uma tela onde corre um filme que há muito conhecemos. Gerswhin e Sinatra compõem uma banda sonora imaginária, e enquanto folheamos as quinhentas páginas de Drive-By Shootings vêm-nos à memória umas frases que um pai diz para um filho em The 25th Hour, de Spike Lee: You're a New Yorker. That will never change. You've got New York in your bones. Todos temos Nova Iorque a correr-nos nas veias, e ainda mais depois da queda das torres nos mostrar que afinal não há cidades eternas.

O último livro da Exlibris é Photography: Crisis of History, uma colectânea de ensaios coordenada por Joan Fontcuberta. (Um dos textos é de Teresa Siza.) Por este, e pelos três livros descritos atrás, gastou-se 37 euros. Não se pode dizer que tenha sido caro.


Pouco depois de sair da Exlibris descobri a Gawronski Buchhandlung, situada no número 119 da Friedrichstrasse (na Friedrichstrasse, dada a dimensão da rua, é importante saber do número da porta dos lugares que procuramos), e que estranhamente me passou ao lado nas anteriores deslocações a Berlim. Tal como a Exlibris, a Gawronski é especializada em livros de arte, e, em particular, de fotografia. A diversidade e a qualidade da oferta é impressionante. O carrinho de compras já estava bem recheado, por isso só se comprou Pyongyang, de Charlie Crane, um livro estranho, muito estranho. Propaganda, ou encenação da propaganda?, passe o pleonasmo. O prefácio, escrito por Nicholas Bonner, promotor de viagens à Coreia do Norte, denuncia alguma simpatia por um dos regimes políticos mais atrozes que conhecemos. No entanto, tendo em conta que a empresa de Bonner está sediada em Beijing, o tom do discurso pode ser apenas uma forma de auto-preservação. Quanto ao trabalho de Charlie Crane, não o conhecia, mas vejo ali traços germânicos. Talvez esteja a ser afectado pelo contexto, mas não posso deixar de me lembrar de Sander, de Thomas Weinberger e do casal Becher.


Carlos Miguel Fernandes

10.6.07

A minha Nikon e a Friedrichstrasse

O número de série da minha Nikon F2 diz-me que esta saiu da fábrica em 1973. Chegou-me às mãos em 1991, com um visor Photomic, em boas condições. Teve um pequeno problema no sistema de avanço do filme, poucos meses após a compra, mas depois, só voltou ao mecânico em 2005, depois de uma queda na rua Friedrichstrasse, em Berlim. A pancada no chão afectou o fotómetro (alojado no visor Photomic) e a reparação não foi tarefa fácil porque, sem peças novas fornecidas pelo fabricante, só a canibalização de outras câmaras permite a plena recuperação de uma F2 avariada. Mas o seu funcionamento acabou por voltar à normalidade (não sem antes ter uma recaída desagradável, a meio de uma passagem por Varsóvia); a máquina é rija, e durante os anos que esteve comigo já passou por situações que lhe deixaram algumas amolgadelas.

A robustez da câmara foi atestada há poucos dias em Berlim, novamente na Friedrichstrasse (!), quando a correia da Nikon se soltou (devido a uma negligência indesculpável da minha parte), e o corpo embateu com violência no chão, com a “cabeça” a aguentar o impacto. Resultado: visor Photomic aberto em dois, com as entranhas à vista. Num assomo de esperança e ingenuidade apanhei as duas partes em que o visor se havia separado e encaixei-as o melhor que pude. Foi com pasmo que verifiquei que o fotómetro continuava a funcionar e a medir correctamente a luz. Uma peça maciça dividida em duas, fios de um lado e do outro, metal retorcido, e o “tanque” continuava a trabalhar! Claro que a tristeza foi apenas temporariamente mitigada. Não teria que trabalhar às cegas, como acontecera em 2005, mas percebi logo que o visor Photomic tinha acabado ali os seus dias, no cruzamento da Friedrichstrasse com a Leipziger Strasse. À segunda foi de vez.

Agora procuro substituto para o velho Photomic (ainda estou à espera de uma resposta em relação à possibilidade de soldar o visor quebrado, mas a opção não me parece muito credível). A cotação da câmara cairá a pique com um visor cujo número de série não corresponde ao corpo. Mas, apesar da Nikon F2 já ter entrado na galeria dos aparelhos coleccionáveis, esta máquina ainda é, para mim, ferramenta de trabalho. Por isso, se alguém souber da existência um visor Photomic à venda, agradeço informações.

View to the north from the corner of the Leipziger Strasse/Friedrichstrasse. Apart from the Potsdamer Platz this was one of the liveliest crossroads in the city. With their department stores, shops and bars, both streets were popular with Berliners and tourists. Berlin – Photographien 1880-1930

A imagem em cima mostra onde tudo aconteceu. Esta fotografia do cruzamento da Friedrichstrasse com a Leipzigerstrasse pode ser vista em Berlin – Photographien 1880-1930, uma obra que nos dá uma ideia da cidade que existiu e fervilhou antes de o século XX ter entrado em acção com o seu rolo compressor. Foi um dos bons livros que trouxe da livraria Exlibris. Falarei disso no próximo texto.


Carlos Miguel Fernandes

25.5.07

Prateleira - Bordertown, de Barry Gifford e David Perry


Comprei Bordertown no Texas, em 1999, não muito longe da fronteira que o livro de Barry Gifford e David Perry intenta retratar. Mas a distância entre San Antonio e a linha que divide os EUA do México é ainda suficientemente grande para afastar da cidade do Álamo o desassossego que cerca tantos lugares de passagem, e que os corrompe para além do tolerável, oferecendo-lhes como reparação inglória uma aura romântica que seduz sem mais argumentos do que a honestidade dos seus recantos pútridos. Talvez por isso, talvez por estar tão perto de um abismo que atrai toda a desordem como um vórtice ardiloso, San Antonio é uma cidade branda sem muitos argumentos para além do inevitável Álamo e de toda a história que lhe está associado. Curiosamente, foi na Batalha do Álamo (1836) que a fronteira actual entre os EUA e o México se começou a desenhar a traço indelével. Foi nesse território que dois artistas americanos se moveram para realizar Bordertown, um esboço directo e áspero da vida nas terras raianas da América Central, feito com as imagens do fotógrafo David Perry e com os textos e desenhos de Barry Gifford, autor de Wild at Heart, obra que foi transformada em filme por David Lynch em 1990.
O livro não esconde um apurado trabalho gráfico, mas não se deixa cair no pudor acusatório nem resvala para a romantização de um mundo com feridas profundas. O tráfico de droga, os raptos, os assassinatos, a prostituição e os pequenos crimes convivem com o quotidiano da rua, e a maldição estende-se pelos três mil e cem quilómetros da fronteira internacional mais movimentada do mundo. Bordertown mostra um universo sem rasto de redenção, pois os seus actores não parecem procurá-la. As personagens percorrem o livro e as silhuetas da paisagem urbana como caminham nas cidades da fronteira: resignadas, felizes ou infelizes. À sua maneira excessiva, estas bordertowns são também cidades tristes e alegres.
Ao contrário de Palla e Costa Martins, Gifford e Perry não ficarão arrolados em lugar de destaque na História da Fotografia e do livro de fotografia. Mas Bordertown não é uma obra desprezável e serviu de complemento a uma viagem que não pôde ir além de San Antonio. Com Bordertown tive a ilusão de ir um pouco mais longe. E há lugares que só se visitam nos livros.

Carlos Miguel Fernandes

5.4.07

Os Alfarrabistas de Amsterdão II

Vamos olhar agora com mais atenção para os livros que vieram de Amsterdão.










Photographies de Henri Cartier-Bresson foi editado em 1963 pela Delpire e reproduz os textos que fizeram o celebrado prefácio de Images à la Sauvette (The Decisive Moment, título da edição inglesa). O livro começa com a famosa frase: Une photographie est pour moi la reconnaissance simultanée, en une fraction de seconde, d'une part de la signification d'un fait, et de l'autre, d'une organisation rigoureuse des formes perçues visuellement qui expriment ce fait. Seguem-se os textos, e quarenta e sete fotografias que percorrem a obra de Henri Cartier-Bresson (1908-2004) desde 1932 até 1961, ano em que o fotógrafo captou uma das suas mais prodigiosas imagens, o retrato do escultor Alberto Giacometti (1901-1966). Capa dura e boas impressões num papel razoável fazem de Photographies de Henri Cartier-Bresson um estimável objecto de colecção.



Henri Cartier-Bresson, Alberto Giacometti, 1961



A primeira grande retrospectiva do trabalho de Jacques Henri-Lartigue (1894-1986) em terras francesas ficou registada no pequeno catálogo 8x80, com edição da Delpire e prefácio de Michel Frizot. Patente ao público em 1975 no Musée des Arts Decoratifs, em Paris, a exposição contou com cerca de duzentas fotografias, das quais foram seleccionadas sessenta e uma para integrar o catálogo. O papel é óptimo e as provas estão perto da perfeição.


Lewis Carroll (1832-1898) é famoso como autor dos livros Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho. Menos conhecida é sua actividade como professor de matemática, mas uma leitura cuidada dos textos revela uma ligação à lógica, à ciência, ao xadrez; e ainda hoje os dois livros são terreno fértil de metáforas para paradigmas e teorias. (O termo Red Queen Effect, que designa uma teoria da biologia evolutiva cada vez mais contestada que pretende explicar alguns fenómenos como a emergência e vantagem do sexo no processo de evolução, foi inspirado num episódio do livro Alice do Outro Lado do Espelho.) A sua obra fotográfica, centrada no retrato, encontra-se também na sombra do sucesso dos livros de Alice, mas tem argumentos para nos pedir um olhar atento. A afinidade com o trabalho de Julia Margaret Cameron (1815-1879) é notória, não só nas formas como no método: Lewis Carroll, tal como a fotógrafa inglesa, encontrava naqueles que lhe estavam próximo os motivos dos seus estudos fotográficos. As crianças ocupam grande parte do seu trabalho, e Alice Liddel, a Alice que inspirou os seus livros, faz parte da extensa galeria de retratados (que inclui também Julia Margaret Cameron). Lewis Carroll, Photographer começa com um texto de Helmut Gernsheim sobre o autor integrando-o na História da Fotografia inglesa. Seguem-se sessenta e três retratos, onde não falta Alice Liddel, nem o xadrez, uma das paixões de Carroll: o notável The Misses Lutwidge, 1859, mostra as tias do fotógrafo no “meio jogo” de uma partida de xadrez. Este livro agora adquirido em Amsterdão junta-se a uma das peças mais estimadas da biblioteca, a qual encontrei em Lubliana há alguns anos. Chama-se Lewis Carroll, foi editado pelo British Council em 1998, no centenário da morte do artista, e junta ensaios de Marina Werner, Roger Taylor e Michael Bakewell, para além de vinte e quatro imagens.


No livro Stielglitz – a memoir/biography, de Sue Davidson Lowe, podemos encontrar, para além da biografia do grande fotógrafo e galerista americano Alfred Stieglitz (1864-1946), alguns retratos por ele executados, nos quais se incluem dois auto-retratos e uma inevitável fotografia da pintora Gergia O’Keefe (1887-1986), a mulher com quem esteve casado durante mais de duas décadas, até à sua morte em 1946.

Kindred Spirits, Hungarian Photographers 1914-2003 é o catálogo de uma exposição sobre fotografia húngara comissariada por Péter Nadas (1942-) que esteve em exibição no Museu de Fotografia de Hague entre Setembro de 2004 e Janeiro de 2005. Budapeste é uma cidade que tenho visitado com regularidade nos últimos anos e de onde tenho trazido algumas referências que vou guardando na prateleira. No entanto, é fácil esquecer que a Hungria já nos deu fotógrafos como Robert Capa (1913-1954), Brassai (1899-1984), Kertész (1894-1985) e Moholy-Nagy (1895-1946), pois tais nomes foram internacionalizadas e fazem agora parte do património da humanidade. O livro guarda excelentes reproduções de alguns trabalhos dos autores citados, e de outros, como Márta Rédner (1909-1991), Martin Munkasci (1896-1963), e até Péter Nádas, o comissário da exposição e autor dos textos que acompanham as fotografias. Talvez os ensaios de Nádas me ajudem a reunir e a entender o material que tenho trazido de Budapeste.


Carlos Miguel Fernandes

12.3.07

Os Alfarrabistas de Amsterdão

Durante a tarde passada em Amsterdão, à espera do voo para Seul, encontrei aquilo que mais procurava. Da visita que fiz à cidade, em 1999, recordava-me, com especial saudade, dos alfarrabistas onde comprei algumas das melhores peças da biblioteca de Fotografia. Desta vez, para além das casas forradas de livros que se podem encontrar perto da Dam, tive a felicidade de os ver todos reunidos numa pequena feira do livro, em local que não posso indicar com precisão pois deambulei pela cidade, durante o pouco tempo que tinha, sem mapa. Da curta visita consegui trazer um catálogo de Cartier-Bresson editado nos anos setenta, uma edição de autor de Lartigue da mesma época, uma biografia de Stieglitz, uma biografia (com fotografias) de Lewis Carrol e um livro sobre fotografia húngara.

Por aqui, em Seul, está uma exposição com imagens de Ansel Adams, Brett Weston e outros. Ainda estou a tentar descobrir o local exacto da mostra (na Coreia, esta é uma tarefa mais complicada do que aparenta ser). Entretanto, em Insa-dong, a pintura continua a dominar o roteiro das galerias.

Carlos Miguel Fernandes

8.3.07

Bohnchang Koo

Quando visitei Seul pela primeira vez, em 2001, passei horas a percorrer as ruas de Insa-dong, o bairro das antiguidades e das galerias de arte. Entrei em várias galerias, mas em nenhuma encontrei uma exposição de fotografia. Há uns anos, alguém me disse que, em Portugal, é mais fácil expor má pintura do que boa fotografia; mas não é apenas no nosso país que esta é subalternizada pela pintura e outras artes. Foi só na Galeria Rodin, noutra zona da cidade, que encontrei a mostra de Bohnchang Koo. Da exposição trouxe o livro e o folheto. Ficaram guardados na prateleira até agora, à espera de disponibilidade para conhecer a obra e a biografia do fotógrafo, e talvez dessa forma entrar no mundo da fotografia coreana. Mas a ambição é sempre maior do que o tempo. Agora, já com as malas feitas para o ansiado regresso a Seul, limpei o pó do livro e fiz uma pesquisa na rede (sem grandes resultados). Deixo-vos aqui algumas imagens da exposição que vi em 2001.





Seis anos depois da primeira visita à Coreia, vou voltar a tentar, vou bater todas as galerias de Insa-dong em busca da alma da fotografia coreana. Busan, o pouso seguinte nesta jornada oriental, também deve guardar algumas surpresas, pois uma cidade com cinco milhões de habitantes é sempre um embrião de criatividade.
Volto em breve. Até lá, o Gonçalo toma conta da casa.

Carlos Miguel Fernandes
P.S. De Seul, em 2001, trouxe também isto.

16.2.07

Lisboa, Cidade Triste e Alegre

Lisboa, Cidade Triste e Alegre, um clássico da Fotografia portuguesa, aqui, no blogue da Associação Portuguesa de Photographia.

Carlos Miguel Fernandes

4.2.07

Daniel Kazimierski e o Palácio da Cultura e Ciência de Varsóvia

Daniel Kazimierski nasceu em Varsóvia em 1949 e vive em Nova Iorque há vinte e cinco anos. É fotógrafo, professor de Fotografia e especialista em processos de impressão clássicos. Em 2005, por ocasião do quinquagésimo aniversário do Palácio da Cultura e Ciência de Varsóvia, publicou o livro mój patac/my palace, o qual reúne imagens do controverso edifício — oferecido por Estaline à capital polaca — realizadas com uma câmara estenopeica (ou pinhole). (O livro está disponível na Amazon mas o preço é muito mais simpático na Polónia. Se estiverem por perto...)


Daniel Kazimierski, moj patac


Carlos Miguel Fernandes