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1.7.07

Fotografar as Vozes

Nessa manhã meu pai chegou quando Massino ainda dormia. O velho se intrometeu no meu quarto e espreitou tudo como um cachorro farejando desconfianças. Parou junto à mesa onde o italiano deixara o gravador.
- É esta máquina que fotografa as vozes?
- É.
- Que vergonha, meu filho. Que vergonha.

Mia Couto, O Último Voo do Flamingo

Mia Couto é o escultor de uma nova língua para a memória futura da lusofonia. O escritor moçambicano, enriquecido pelos sons impolutos de um idioma ainda livre dos grilhões da forma, vem criando um mosaico de neologismos, glosando, através da ficção, uma oralidade cuja riqueza pode ficar perdida nos caminhos percorridos pelos longos passos da História. No excerto transcrito, mais do que a invenção das palavras, encontramos um recurso literário aparentemente rudimentar, mas que apresenta cambiantes imprevistas.
Metáfora, — se aceitarmos a personificação quase intrínseca dos aparatos evocados, e trocarmos o sujeito do verbo — ou apenas metonímia? Ou será animismo, pois, apesar do senso comum nos conduzir frequentemente até à mais antropomórfica das figuras de estilo, a fotografia é uma nobre arte que demanda a sageza humana, que recusa a inconsequência de um mecanismo inanimado e a redução do acto de fotografar a um instante mecânico? E as vozes? O que são as vozes? Sons emitidos pela laringe com o ar que sai dos pulmões, ou discurso humano coerente?

Mas deixemos a estrutura literária e concentremo-nos na simplicidade das palavras e na complexidade dos conceitos. Com Mia Couto assistimos à irrupção do polimorfismo no verbo “fotografar”. Mas foi George Eastman (1854-1932) quem, no final do século XIX, democratizou o acto de fotografar.

Eastman, desde da cozinha da sua mãe, onde produzia emulsões e negativos de vidro, rodeado por um magote de panelas, construiu um império multinacional, a Eastman Kodak Company, o qual ainda hoje se movimenta com facilidade numa parcela significativa do mercado fotográfico. Dos negativos de vidro, que começou a fabricar em 1880, Eastman rapidamente se envolveu em processos inovadores e fundamentais para o salto evolutivo que, no final do século XIX, marcariam o processo fotográfico. Em 1888, a Kodak nº1 — um aparelho simples, de formato paralelepipédico, com foco e tempo de exposição fixos — foi lançada no mercado americano, e em pouco tempo, a sua extraordinária facilidade de utilização alargou consideravelmente o conjunto de praticantes da arte fotográfica. Os negativos em vidro, nada maleáveis e de natureza individual, davam o seu lugar, pela primeira vez, a um rolo flexível, sensível à luz, no qual era possível registar uma centena de negativos. Depois de captadas as imagens, o aparelho era enviado para o fabricante, e este, depois de processar a película e imprimir as provas em papel, devolvia-o ao seu proprietário, acompanhado pelas desejadas fotografias e devidamente guarnecido com um novo rolo.Apesar do êxito, o processo, que parecia marcar uma espécie de regresso ao passado da talbotipia (ou calotipia), — método contemporâneo da daguerreotipia, criado por Henry Fox Talbot, que consistia na captação de imagens num papel previamente sensibilizado com sais de prata, e posterior passagem para positivo através de contacto com outra superfície sensível — apresentava o mesmo defeito do qual enfermava o seu antepassado: as imagens positivas, por não serem obtidas através de um negativo transparente, perdiam qualidade, na definição e no contraste, mesmo quando o rolo era mergulhado em óleo de rícino para perder alguma opacidade (tal como também acontecia com os calótipos, nos anos quarenta do século XIX).No entanto, Eastman não descansou à sombra do sucesso obtido pela nº1. O suporte em papel acabou por ser substituído por plástico (nitrato de celulose), em 1889, e, até ao aparecimento da fotografia digital, foi este o paradigma dominante no mercado dos materiais fotográficos sensíveis à luz. O sucesso do velho produtor de emulsões é histórico. A Kodak nº1 vendeu 30 000 unidades no primeiro ano de comercialização, e a sua sucessora, a Kodak nº2, já tinha sido comprada, a meio da década de 1890, por mais de 100 000 amadores. A partir dessa altura, a fotografia deixou de ser privilégio de profissionais e aristocratas ociosos, e espalhou-se por uma população ávida de novas imagens.


Carlos Miguel Fernandes


Bibliografia
1- Pavão, L., Conservação de Colecções de Fotografia, Dinalivro, 1997.

2- Pollack, The Picture History of Photography, Harry N. Abrams, Inc., New York, 1977.

10.6.07

A minha Nikon e a Friedrichstrasse

O número de série da minha Nikon F2 diz-me que esta saiu da fábrica em 1973. Chegou-me às mãos em 1991, com um visor Photomic, em boas condições. Teve um pequeno problema no sistema de avanço do filme, poucos meses após a compra, mas depois, só voltou ao mecânico em 2005, depois de uma queda na rua Friedrichstrasse, em Berlim. A pancada no chão afectou o fotómetro (alojado no visor Photomic) e a reparação não foi tarefa fácil porque, sem peças novas fornecidas pelo fabricante, só a canibalização de outras câmaras permite a plena recuperação de uma F2 avariada. Mas o seu funcionamento acabou por voltar à normalidade (não sem antes ter uma recaída desagradável, a meio de uma passagem por Varsóvia); a máquina é rija, e durante os anos que esteve comigo já passou por situações que lhe deixaram algumas amolgadelas.

A robustez da câmara foi atestada há poucos dias em Berlim, novamente na Friedrichstrasse (!), quando a correia da Nikon se soltou (devido a uma negligência indesculpável da minha parte), e o corpo embateu com violência no chão, com a “cabeça” a aguentar o impacto. Resultado: visor Photomic aberto em dois, com as entranhas à vista. Num assomo de esperança e ingenuidade apanhei as duas partes em que o visor se havia separado e encaixei-as o melhor que pude. Foi com pasmo que verifiquei que o fotómetro continuava a funcionar e a medir correctamente a luz. Uma peça maciça dividida em duas, fios de um lado e do outro, metal retorcido, e o “tanque” continuava a trabalhar! Claro que a tristeza foi apenas temporariamente mitigada. Não teria que trabalhar às cegas, como acontecera em 2005, mas percebi logo que o visor Photomic tinha acabado ali os seus dias, no cruzamento da Friedrichstrasse com a Leipziger Strasse. À segunda foi de vez.

Agora procuro substituto para o velho Photomic (ainda estou à espera de uma resposta em relação à possibilidade de soldar o visor quebrado, mas a opção não me parece muito credível). A cotação da câmara cairá a pique com um visor cujo número de série não corresponde ao corpo. Mas, apesar da Nikon F2 já ter entrado na galeria dos aparelhos coleccionáveis, esta máquina ainda é, para mim, ferramenta de trabalho. Por isso, se alguém souber da existência um visor Photomic à venda, agradeço informações.

View to the north from the corner of the Leipziger Strasse/Friedrichstrasse. Apart from the Potsdamer Platz this was one of the liveliest crossroads in the city. With their department stores, shops and bars, both streets were popular with Berliners and tourists. Berlin – Photographien 1880-1930

A imagem em cima mostra onde tudo aconteceu. Esta fotografia do cruzamento da Friedrichstrasse com a Leipzigerstrasse pode ser vista em Berlin – Photographien 1880-1930, uma obra que nos dá uma ideia da cidade que existiu e fervilhou antes de o século XX ter entrado em acção com o seu rolo compressor. Foi um dos bons livros que trouxe da livraria Exlibris. Falarei disso no próximo texto.


Carlos Miguel Fernandes