25.9.07

Grupo IF

Quando li este texto escrito pela Ângela para o blogue da Associação Portuguesa de Photographia houve um nome que me despertou especial interesse. "Conhecia" há muito um José Carlos Príncipe, investigador de uma área científica à qual estou indirectamente ligado através do meu laboratório. Já uma vez me cruzara com ele, num hotel de Lisboa, durante uma avaliação de projectos da FCT. No entanto, nunca colaborámos nem trocámos qualquer mensagem, e por isso ser-me-ia impossível verificar, sem ser intrusivo, se o José Carlos Príncipe que actualmente se encontra na Universidade da Florida é o mesmo que nos anos 70 se envolveu com o Grupo IF. Ainda perdi algum tempo a fazer pesquisas na rede, mas acabei por desistir e nunca mais me lembrei desta história. Hoje, ao folhear a revista Única do Expresso encontrei uma entrevista com Príncipe. No final, lá estava a referência à paixão adiada pela Fotografia e à passagem pelo Grupo IF. Afinal, ainda estamos a tempo de fazer a História deste agregado de fotógrafos que, nos anos 70 do século passado, animou a fotografia portuense.


Carlos Miguel Fernandes

Atlas IV

Atlas, one of the titans in Greek mythology, fought Zeus in the war between the Olympian gods and their predecessors. After ten years of confrontation, the gods won. While some of the defeated titans were sent to Tartarus, Atlas was condemned to hold up the sky on his shoulders.


The Atlantic Ocean, unlike the mythological figure after which it was named, does not hold up the sky; it sustains villages and people from three continents, instead. It is thus closer to the popular misconception of Atlas, where the unfortunate titan is represented holding the Earth (instead of the firmament), upon his shoulders.

Carlos Miguel Fernandes, Blue Lagoon, Iceland, 2006


Carlos Miguel Fernandes

21.9.07

Atlas III

Blaue Streifen
stiegen im Osten auf;
sanft und schnell
segelt das Schiff:
auf ruhiger See vor Abend
erreichen wir sicher das Land.

(Blue shadows
are rising up in the east;
smoothly and swiftly
the ship sails on:
on a calm sea, before evening,
we shall safely reach land.)

Richard Wagner, Tristan und Isolde, Act One, Scene One

19.9.07

Atlas II

25 years since the opening of Ether (1982/1996), the curtain rises once again on a new space in Lisbon exclusively dedicated to photography: the P4Photography Gallery. Following the success of the first photography auctions in Portugal (which began in 2006), P4 developed a new strategy focusing on the photography arts in general. This includes the creation of a data base and sale of Portuguese photography books (several of them out of print), the production of limited edition prints and now the foundation of a photography gallery.

The P4Photography Gallery, which will show the work of both Portuguese and foreign artists, aims to become a major player in the photography field in Portugal. Some of the great international photographers have worked in Portugal, showing a particular empathy with the Portuguese sensibility: Henri Cartier-Bresson, Lou Stettner, Thurston Hopkins, Harry Callahan, Sebastião Salgado, etc. More recently, Sarah Moon, Candida Hoffer, Hedi Slimane and Bert Teunisssen have also paid tribute to this fascination.

Several Portuguese contemporary photographers – Gérard Castello-Lopes, Paulo Nozolino, Jorge Molder, José M. Rodrigues, Helena Almeida, Edgar Martins, Daniel Blaufuks and others – have also become internationally known, spreading the Portuguese way of seeing (if such a thing exists).

The P4Photography Gallery will exhibit not only well-known photographers but also newcomers, particularly those with an interest in all things Portuguese. A daunting task when one thinks that there are traces of Portugal all over the world.

Carlos M. Fernandes, João Mariano and Rui Fonseca are three photographers whose work reflects this philosophy. They have traveled extensively (Iceland, Norway, Continental Portugal and the Azores,) in search of the overwhelming energy of the Atlantic and Atlas.

Luís Trindade
p4photography Director

João Mariano (Atlas)

16.9.07

Atlas


Aqui está uma possível justificação para a prolongada ausência.
A ambição é grande. A p4 e os fotógrafos a ela associados pretendem mudar a forma como se mostra e comercializa fotografia em Portugal. Vamos tentar agitar as coisas e esperamos que esta exposição tenha o impacto que a nossa dedicação à causa merece.
(A fotografia do convite é do Rui Fonseca. O trabalho do João Mariano pode ser visto em http://www.joaomariano.com/. Eu adquiri um domínio novo, http://www.carlosmfernandes.com/, mas ainda preciso de acertar com o formato das páginas.)


Carlos Miguel Fernandes

8.8.07

Livros

O livro I-S-T 95-75-15 está agora à venda na Potássio 4. Lá encontrarão também Kaluptein e outros livros de fotografia editados pela IST Press, tal como ist, de Augusto Alves da Silva, e Rocks & Stones, o excelente catálogo da exposição com o mesmo nome, comissariada por Jorge Calado em 2003. Vejam também os livros do Rui Fonseca e do João Mariano. E outros. Todos.

Carlos Miguel Fernandes, Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2004 (de I-S-T 95-75-15)


Carlos Miguel Fernandes

2.8.07

Prateleira — Mathew Brady - An Historian with a Camera

(Excerto de um texto publicado no No Mundo. Deixo aqui a parte que interessa ao Nafarricos.)

"Comprei Mathew Brady — An Historian with a Camera, de James B. Horan, na Strand de Nova Iorque, uma livraria de sonho onde podemos encontrar álbuns de fotografia novos a preço de terceira ou quarta mão. Foi lá que também encontrei outras semi-preciosidades (ah, se fossem primeiras edições!), tais como A Guide to Better Photography, de Berenice Abbot (1947, primeira edição de 1941), e o célebre The Negative, de Ansel Adams (1955, primeira edição de 1948). Este Mathew Brady — An Historian with a Camera parece ser uma primeira edição, mas não tem o estatuto que têm os livros de Abbot e Adams. Mas é bom livro, que nos conta a história da vida de Mathew Brady, o grande retratista da América, um homem que nos deixou um legado inestimável, e que arriscou tudo, depois de uma consagrada carreira, para retratar a Guerra Civil americana. Sem os milhares de negativos de Brady seríamos muito mais pobres e ignorantes. Infelizmente, o trabalho de Solomon Nunes Carvalho, um judeu de ascendência portuguesa que trabalhou com Mathew Brady, não teve a mesma sorte. Carvalho atravessou o Oeste selvagem (1853-54) com uma câmara, e conta-se que edificou um trabalho épico. Tudo se perdeu num incêndio e Solomon Nunes Carvalho, que esteve perto de figurar na anais da História da Fotografia, acabou por resignar-se a ser nota de rodapé."

Mathew Brady, Lincoln, 1864


(Sobre Solomon Nunes, aconselho a leitura deste texto publicado há uns meses no Grand Monde.)
Carlos Miguel Fernandes

24.7.07

Curso de Fotografia (de Verão)

As inscrições para o curso de Verão que se inicia na próxima segunda-feira, dia 30 de Julho, já estão abertas. São duas semanas de curso, quatro aulas por semana, de segunda a quinta das 19 às 21.30. Parece que há problemas com a página do NAF, e a sua actualização tem sido impossível nos últimos dias. Por isso, quem desejar mais informações sobre este curso pode contactar-nos através de correio electrónico (naf.ist@gmail.com).

NAF

19.7.07

Ainda a Roma de Martin Parr

And now? What could be more irreverent than tourists? Just look at them, with their cameras and cokes and caps and maps: anything but sublime.
But then look — and think — again. If you really open your eyes, isn’t what you are seeing also a collective rite? The meal under the Pantheon’s colonnade — doesn’t that have a touch of the sacramental? The enthusiastic photographers taking pictures with cameras held aloft over the crowds, isn’t that capturing the sublime, a latter-day divination?

Esta introdução de Barry Fifield ao livro Tutta Roma vê aquilo que um primeiro olhar distraído não encontra logo na obra de Martin Parr. Parr, o fotógrafo das massas. Parr, o fotógrafo do consumismo. São estes os epítetos habituais com os quais o autor inglês, membro efectivo da Magnum, é frequentemente classificado, epítetos carregados de um sarcasmo que pretende reflectir a sua fotografia, e que talvez por isso estejam longe da verdade.

Um olhar mais atento sobre a obra revela logo a faceta mais lúdica: o sentido de humor. Mas Parr não goza com aquelas pessoas; não se ri delas, mas ri-se com elas, e dele mesmo. Martin Parr sabe que aqueles seres encavalitados que vê a tentar fotografar o Coliseu, ou nos corredores dos supermercados a encher os carrinhos, têm um nome carregado de nobreza: humanidade. Somos nós. Todos. Olhá-los do alto de um pedestal é pecado que o fotógrafo não comete, pois sabe que também faz parte daquele tropel que invade as cidades quando o calor aperta.

Carlos Miguel Fernandes, Trafalgar Square, Londres, Julho de 2007

No sábado passado estava, por volta das três da tarde, em frente da Catedral St. Paul, em Londres. Durante uns instantes, olhei para aquela multidão que se agregava nas escadas e na entrada do enorme edifício e senti um arrepio. Como é possível um ser humano sujeitar-se a tais tempos de espera e encontrões?, pensei. No mesmo instante reparei que também eu estava ali, no meio daquela romaria, e, sendo verdade que não pretendia entrar, não me podia esquecer que, de alguma forma, seguira uma espécie de corrente que me trouxera até àquela praça. Não entrei na St. Paul, tal como nunca tive paciência para enfrentar as filas que se formam à entrada da Uffizi, em Florença. Mas já estive na Catedral de S. Estevão, em Budapeste, e no Rainha Sofia de Madrid, entre tantos e tantos lugares eleitos por aquele bando para o qual eu agora olhava com comiseração. Mas eu sou, afinal, um deles.

One of us, one of us, é a ladainha aterradora que os deformados de Freaks, de Todd Browning, repetem enquanto se aproximam da mulher “normal”. O verdadeiro monstro é, afinal, essa mulher. Tal como os verdadeiros “coitados” são aqueles que olham para o turismo de massas com repulsa, como uma ameaça da globalização. São patéticos, esses cardumes de turistas de máquina em riste? (Os japoneses foram gozados durante anos devido à forma compulsiva como disparavam as câmaras, mas agora, na era digital, somos todos japoneses de dedo nervoso, não é?). Talvez. Mas somos nós. Martin Parr sabe isso e não (n)os olha com desdém. Porque é um de nós, one of us. E mesmo que não fosse, é um cavalheiro, e um cavalheiro não goza com os outros. Prefere procurar o sublime.

Carlos Miguel Fernandes

9.7.07

Roma em Londres

Já havia sido alertado pela Madalena. Encontrei o livro na Judd Books, em Bloomsbury. Used and Bargain!, alardeia a casa. E tem razão. Nove libras pelo Tutta Roma de Martin Parr é um belo negócio. E há quem diga que Londres é uma cidade cara!

Carlos Miguel Fernandes

1.7.07

Fotografar as Vozes

Nessa manhã meu pai chegou quando Massino ainda dormia. O velho se intrometeu no meu quarto e espreitou tudo como um cachorro farejando desconfianças. Parou junto à mesa onde o italiano deixara o gravador.
- É esta máquina que fotografa as vozes?
- É.
- Que vergonha, meu filho. Que vergonha.

Mia Couto, O Último Voo do Flamingo

Mia Couto é o escultor de uma nova língua para a memória futura da lusofonia. O escritor moçambicano, enriquecido pelos sons impolutos de um idioma ainda livre dos grilhões da forma, vem criando um mosaico de neologismos, glosando, através da ficção, uma oralidade cuja riqueza pode ficar perdida nos caminhos percorridos pelos longos passos da História. No excerto transcrito, mais do que a invenção das palavras, encontramos um recurso literário aparentemente rudimentar, mas que apresenta cambiantes imprevistas.
Metáfora, — se aceitarmos a personificação quase intrínseca dos aparatos evocados, e trocarmos o sujeito do verbo — ou apenas metonímia? Ou será animismo, pois, apesar do senso comum nos conduzir frequentemente até à mais antropomórfica das figuras de estilo, a fotografia é uma nobre arte que demanda a sageza humana, que recusa a inconsequência de um mecanismo inanimado e a redução do acto de fotografar a um instante mecânico? E as vozes? O que são as vozes? Sons emitidos pela laringe com o ar que sai dos pulmões, ou discurso humano coerente?

Mas deixemos a estrutura literária e concentremo-nos na simplicidade das palavras e na complexidade dos conceitos. Com Mia Couto assistimos à irrupção do polimorfismo no verbo “fotografar”. Mas foi George Eastman (1854-1932) quem, no final do século XIX, democratizou o acto de fotografar.

Eastman, desde da cozinha da sua mãe, onde produzia emulsões e negativos de vidro, rodeado por um magote de panelas, construiu um império multinacional, a Eastman Kodak Company, o qual ainda hoje se movimenta com facilidade numa parcela significativa do mercado fotográfico. Dos negativos de vidro, que começou a fabricar em 1880, Eastman rapidamente se envolveu em processos inovadores e fundamentais para o salto evolutivo que, no final do século XIX, marcariam o processo fotográfico. Em 1888, a Kodak nº1 — um aparelho simples, de formato paralelepipédico, com foco e tempo de exposição fixos — foi lançada no mercado americano, e em pouco tempo, a sua extraordinária facilidade de utilização alargou consideravelmente o conjunto de praticantes da arte fotográfica. Os negativos em vidro, nada maleáveis e de natureza individual, davam o seu lugar, pela primeira vez, a um rolo flexível, sensível à luz, no qual era possível registar uma centena de negativos. Depois de captadas as imagens, o aparelho era enviado para o fabricante, e este, depois de processar a película e imprimir as provas em papel, devolvia-o ao seu proprietário, acompanhado pelas desejadas fotografias e devidamente guarnecido com um novo rolo.Apesar do êxito, o processo, que parecia marcar uma espécie de regresso ao passado da talbotipia (ou calotipia), — método contemporâneo da daguerreotipia, criado por Henry Fox Talbot, que consistia na captação de imagens num papel previamente sensibilizado com sais de prata, e posterior passagem para positivo através de contacto com outra superfície sensível — apresentava o mesmo defeito do qual enfermava o seu antepassado: as imagens positivas, por não serem obtidas através de um negativo transparente, perdiam qualidade, na definição e no contraste, mesmo quando o rolo era mergulhado em óleo de rícino para perder alguma opacidade (tal como também acontecia com os calótipos, nos anos quarenta do século XIX).No entanto, Eastman não descansou à sombra do sucesso obtido pela nº1. O suporte em papel acabou por ser substituído por plástico (nitrato de celulose), em 1889, e, até ao aparecimento da fotografia digital, foi este o paradigma dominante no mercado dos materiais fotográficos sensíveis à luz. O sucesso do velho produtor de emulsões é histórico. A Kodak nº1 vendeu 30 000 unidades no primeiro ano de comercialização, e a sua sucessora, a Kodak nº2, já tinha sido comprada, a meio da década de 1890, por mais de 100 000 amadores. A partir dessa altura, a fotografia deixou de ser privilégio de profissionais e aristocratas ociosos, e espalhou-se por uma população ávida de novas imagens.


Carlos Miguel Fernandes


Bibliografia
1- Pavão, L., Conservação de Colecções de Fotografia, Dinalivro, 1997.

2- Pollack, The Picture History of Photography, Harry N. Abrams, Inc., New York, 1977.

19.6.07

Informações

1. A exposição do curso superior de Fotografia do Instituto Politécnico de Tomar inaugura na próxima quinta-feira, dia 21 de Junho, às 19 horas, no Arquivo Municipal de Lisboa. A exposição estará aberta ao público até ao dia 31 de Julho, de 3ª feira a sábado, das 10 às 19 horas.

2. No próximo sábado, dia 23, das 10 às 22 horas, realizar-se-á a 1ª Maratona de Fotografia Digital de Alfama, organizada pela Associação do Património e da População de Alfama. Para mais informações podem consultar a página da Associação em http://www.app-alfama.org/

NAF

16.6.07

As Livrarias de Berlim

Vamos começar pela Exlibris. Podem encontrá-la na Reinhardtstrasse, uma rua perpendicular à Friedrichstrasse, na extremidade norte da extensa via que liga o Kreuzberg ao Mitte. (Confesso o meu fascínio pela zona de confluência entre a Friedrichstrasse e a Oranienburger Strasse, e tenho as minhas razões.) Já conhecia a Exlibris de outras viagens, e de lá veio um livro de August Sander (1876-1964). Desta vez encontrei a livraria numa simpática fase de promoção do seu extenso catálogo de livros de fotografia.

De Berlin — Photographien 1880-1930 já falei aqui em baixo. O livro acolhe cem fotografias de Berlim tiradas entre 1871 e 1931 por F. Albert Schwartz (1836-1906), Hermann Rückwardt (1845-1919), Waldemar Titzenthaler (1869-1937) e Max Missmann (1874-1945), entre outros fotógrafos, alguns, provavelmente, anónimos. São retratos de uma cidade que já não existe, um lugar burguês, arrebatador e vibrante que começou a definhar em 1933, e que morreu em 1944 sob a espada impiedosa do Aliados. Podia ter ressuscitado, como tantas outras cidades, arrasadas e reerguidas, numa espécie de hino perverso à estupidez e grandeza humanas. Mas ficou refém da estupidez durante mais quarenta anos. Em 1989 o Muro desapareceu, e uma nova cidade começou a nascer a partir da longa faixa urbana que antes era “terra de ninguém”. É essa cidade em metamorfose que Gabriele Basilico nos mostra no livro Berlin, editado em 2002 (as imagens são de 2001), e prémio Photoespaña do melhor livro de fotografia desse ano.
Goste-se ou não do trabalho de Gabriele Basilico (e eu gosto!), temos de reconhecer que Berlin é um objecto belíssimo que mereceu o prémio Photoespaña (o mesmo que este ano foi atribuído ao português Daniel Blaufuks). Capa dura, lombada elegante e 138 fotografias reproduzidas de forma irrepreensível. E o prefácio é, pelo menos, original: uma conversa telefónica entre Basilico, Hans Ulrich Obrist e Stefano Boeri. Nas fotografias, Gabriele Basilico mostra-nos uma cidade que só tem seis anos mas já pertence ao passado. É assim com as cidades em construção: o que se fotografa hoje já é matéria de estudo amanhã.

Eterna parece ser a Nova Iorque de David Bradford, um taxista-fotógrafo, que em 1996 editou Drive-By Shootings — Photographs by a New York Taxi Driver. Bradford leva-nos numa longa viagem pelas ruas de Nova Iorque, e as janelas do seu carro são como uma tela onde corre um filme que há muito conhecemos. Gerswhin e Sinatra compõem uma banda sonora imaginária, e enquanto folheamos as quinhentas páginas de Drive-By Shootings vêm-nos à memória umas frases que um pai diz para um filho em The 25th Hour, de Spike Lee: You're a New Yorker. That will never change. You've got New York in your bones. Todos temos Nova Iorque a correr-nos nas veias, e ainda mais depois da queda das torres nos mostrar que afinal não há cidades eternas.

O último livro da Exlibris é Photography: Crisis of History, uma colectânea de ensaios coordenada por Joan Fontcuberta. (Um dos textos é de Teresa Siza.) Por este, e pelos três livros descritos atrás, gastou-se 37 euros. Não se pode dizer que tenha sido caro.


Pouco depois de sair da Exlibris descobri a Gawronski Buchhandlung, situada no número 119 da Friedrichstrasse (na Friedrichstrasse, dada a dimensão da rua, é importante saber do número da porta dos lugares que procuramos), e que estranhamente me passou ao lado nas anteriores deslocações a Berlim. Tal como a Exlibris, a Gawronski é especializada em livros de arte, e, em particular, de fotografia. A diversidade e a qualidade da oferta é impressionante. O carrinho de compras já estava bem recheado, por isso só se comprou Pyongyang, de Charlie Crane, um livro estranho, muito estranho. Propaganda, ou encenação da propaganda?, passe o pleonasmo. O prefácio, escrito por Nicholas Bonner, promotor de viagens à Coreia do Norte, denuncia alguma simpatia por um dos regimes políticos mais atrozes que conhecemos. No entanto, tendo em conta que a empresa de Bonner está sediada em Beijing, o tom do discurso pode ser apenas uma forma de auto-preservação. Quanto ao trabalho de Charlie Crane, não o conhecia, mas vejo ali traços germânicos. Talvez esteja a ser afectado pelo contexto, mas não posso deixar de me lembrar de Sander, de Thomas Weinberger e do casal Becher.


Carlos Miguel Fernandes

10.6.07

A minha Nikon e a Friedrichstrasse

O número de série da minha Nikon F2 diz-me que esta saiu da fábrica em 1973. Chegou-me às mãos em 1991, com um visor Photomic, em boas condições. Teve um pequeno problema no sistema de avanço do filme, poucos meses após a compra, mas depois, só voltou ao mecânico em 2005, depois de uma queda na rua Friedrichstrasse, em Berlim. A pancada no chão afectou o fotómetro (alojado no visor Photomic) e a reparação não foi tarefa fácil porque, sem peças novas fornecidas pelo fabricante, só a canibalização de outras câmaras permite a plena recuperação de uma F2 avariada. Mas o seu funcionamento acabou por voltar à normalidade (não sem antes ter uma recaída desagradável, a meio de uma passagem por Varsóvia); a máquina é rija, e durante os anos que esteve comigo já passou por situações que lhe deixaram algumas amolgadelas.

A robustez da câmara foi atestada há poucos dias em Berlim, novamente na Friedrichstrasse (!), quando a correia da Nikon se soltou (devido a uma negligência indesculpável da minha parte), e o corpo embateu com violência no chão, com a “cabeça” a aguentar o impacto. Resultado: visor Photomic aberto em dois, com as entranhas à vista. Num assomo de esperança e ingenuidade apanhei as duas partes em que o visor se havia separado e encaixei-as o melhor que pude. Foi com pasmo que verifiquei que o fotómetro continuava a funcionar e a medir correctamente a luz. Uma peça maciça dividida em duas, fios de um lado e do outro, metal retorcido, e o “tanque” continuava a trabalhar! Claro que a tristeza foi apenas temporariamente mitigada. Não teria que trabalhar às cegas, como acontecera em 2005, mas percebi logo que o visor Photomic tinha acabado ali os seus dias, no cruzamento da Friedrichstrasse com a Leipziger Strasse. À segunda foi de vez.

Agora procuro substituto para o velho Photomic (ainda estou à espera de uma resposta em relação à possibilidade de soldar o visor quebrado, mas a opção não me parece muito credível). A cotação da câmara cairá a pique com um visor cujo número de série não corresponde ao corpo. Mas, apesar da Nikon F2 já ter entrado na galeria dos aparelhos coleccionáveis, esta máquina ainda é, para mim, ferramenta de trabalho. Por isso, se alguém souber da existência um visor Photomic à venda, agradeço informações.

View to the north from the corner of the Leipziger Strasse/Friedrichstrasse. Apart from the Potsdamer Platz this was one of the liveliest crossroads in the city. With their department stores, shops and bars, both streets were popular with Berliners and tourists. Berlin – Photographien 1880-1930

A imagem em cima mostra onde tudo aconteceu. Esta fotografia do cruzamento da Friedrichstrasse com a Leipzigerstrasse pode ser vista em Berlin – Photographien 1880-1930, uma obra que nos dá uma ideia da cidade que existiu e fervilhou antes de o século XX ter entrado em acção com o seu rolo compressor. Foi um dos bons livros que trouxe da livraria Exlibris. Falarei disso no próximo texto.


Carlos Miguel Fernandes

5.6.07

Berlim

Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2007

Berlim, no passado fim-de-semana. Em breve, alguns apontamentos sobre os livros de fotografia que comprei na capital alemã. E também sobre a forma como a maldita Friedrichstrasse conseguiu finalmente matar o visor da minha Nikon F2, dois anos após a primeira tentativa.

Carlos Miguel Fernandes