Estou agora aqui, no meu novo blogue de Fotografia. A minha ligação à P4Photography, faz-me, pelo menos para já, repensar a minha participação no Nafarricos. Os meus esforços têm sido direccionados na escrita de alguns textos, e gestão de assuntos, relacionados com a galeria, e não faz sentido trazê-los para o âmbito do Núcleo de Arte Fotográfica. Para além disso, a situação do NAF, periclitante, não é um grande incentivo a projectos a longo prazo. Os “donos” do NAF já decidiram e pouco há a fazer. O NAF vai, provavelmente, desaparecer. Os seus verdugos não serão julgados pela História, porque, infelizmente, a responsabilização (ou accountabillity o termo inglês, mais exacto, mas intraduzível) não faz parte de uma cultura que despreza as suas próprias instituições. Mas também não deixarão marcas na longa narrativa do Técnico e do Núcleo. Dos fracos não reza a História.

Carlos M. Fernandes, I-S-T 95-75-15

Carlos Miguel Fernandes


Objectos Encontrados II

Colecção Carlos M. Fernandes

Carlos Miguel Fernandes
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Objectos Encontrados I

Colecção Carlos M. Fernandes

Carlos Miguel Fernandes


Pherographia: Drawing by Ants

Timor mortis conturbat me.

In 1844, Talbot defined light as The Pencil of Nature. Inside the camera obscura, the artist’s pencil was being replaced by light and silver. Photography had just born, from the camera and chemistry, and the apparatus was no longer used exclusively for drawing lines on top of projected images. But nature has other pencils and the scientific progress of the last decades opened the gates to new worlds, to artificial and simulated environments based on natural phenomena. Several research fields are advancing and cooperating in order to understand how natural systems behave (and self-organize) and how these lessons may be applied in real-world problems. Ants, for instance, are known for being able to act as a swarm, find food and build rather stable travelling paths; ants draw lines on the environment. In 1994, scientists Dante Chialvo and Mark Millonas presented a swarm model with a dynamic behavior that may be tuned in to a region that lies between chaos and order, were paths/lines emerge in a plain environment. As in nature, ants communicate by pheromone (here, artificial), which they deposit on the environment and tend to follow as long as they detect it. Other researchers followed this line of work, and modified and applied the system to grayscale images, in order to look for alternative means to deal with image processing tasks. However, new ideas arise when looking at the aesthetical and metaphoric potentialities of the pheromone fields created by ants. Like the pencils of camera obscura, ants draw lines along the contours of the image, by laying more pheromone were contrast is higher (thus attracting other ants that will reinforce pheromone in that area). Like light, silver and film development, the process is gradual, starting with a blank pheromone landscape were slowly emerges an image, a sketch of the original picture.
The “fields” in this project were obtained by evolving the swarm on black-and-white negatives found in a flea market. The ants can draw over any image, and an artifact/camera to capture it directly is possible, but this way we recycle old photographs, in a kind of ecology of the image. In addition, the stage is given to those anonymous people whose faces are locked up in photo albums. All photographs are memento mori, Susan Sontag wrote. By recovering and working on these images, we try to provide them with a last breath of life.

Carlos M. Fernandes, Drawing by Ants

Carlos Miguel Fernandes


Nova Iorque

Estive recentemente em Nova Iorque. Mão amiga guiou-me, à distância, pelas galerias de fotografia de Chelsea. Fui até ao limite ocidental do bairro, já perto do Hudson, subi elevadores, fiz soar campainhas, encontrei a Bruce Silverstein fechada, e esbarrei com espaços que não estavam na lista obrigatória. Na Robert Mann e na Julie Saul encontram-se agora exposições do acervo. On the refrain, até 22 de Agosto na Mann, recorre aos mestres do preto-e-branco, alguns representados na galeria, para estabelecer relações (refrães) entre autores aparentemente distantes. Há magníficas fotografias vintage, e a concepção da exposição, com uma sequenciação de imagens baseada não só nas formas, mas também noutras sugestões mais subtis, leva-nos num ritmado périplo pelo modernismo da Fotografia da primeira metade do século XX. Paul Arma’s Hands, de André Kertész (1894-1985), é um regalo para os olhos. Podem comprá-la por 4500 dólares, muito menos do que algum lixo contemporâneo que empeçonha os circuitos comerciais da Arte.

André Kertész, Paul Arma's Hands

Na Julie Saul, When the color was new (até 6 de Setembro) ambiciona abranger e mostrar o processo de entrada da cor na idade adulta, quando esta retira ao preto-e-branco a exclusividade nas paredes das galerias e museus. Está lá Eggleston, obviamente, e as polaróides de Walker Evans. When the color was new e On the Refrain, foram as melhores exposições que vi nessa tarde. Antes de ir à Aperture, ainda passei pelas galerias James Mollison, Priska C. Juschka, Folley e Poller, todas com Fotografia nas paredes. A Aperture tinha (a galeria fecha em Agosto) um trabalho de Richard Ross, Architectures of Authorithy, que retrata os espaços de autoridade, de poder, de esmagamento das liberdades individuais. Os livros e as edições limitadas estavam em saldo. Por fim, depois de descansar no BillyMark’s West, ainda arranjei forças para subir a Avenue of the Americas até ao Internacional Center of Photography, onde se encontra uma exposição de fotografia japonesa contemporânea, desigual, e uma mostra de Bill Wood (1913-1973), um fotógrafo comercial, e vendedor de câmaras e acessórios. Da primeira exposição retive os nomes de Naoya Hatakeyama, Risaku Suzuki e Miwa Yanagi, e reforcei uma convicção: no Japão fazem-se livros de Fotografia deslumbrantes, originais, refinados. Bill Wood, o fundador da Bill Wood Photo Company, um fotógrafo do banal recuperado pelos curadores Marvin Heifemann e Diane Keaton, surpreendeu-me. A exposição, evitando inteligentemente uma linha de tempo, mostra-nos um trajecto uniforme, marcado pelas encomendas e por um inusitado rigor formal, mas que ao mesmo tempo parece caminhar ao lado daquilo que se convencionou chamar fotografia vernacular.
E foi tudo, nessa tarde quente de Julho. E foi muito.

(Outras histórias de Nova Iorque aqui.)

Carlos Miguel Fernandes


Quia in Inferno Nulla Est Redemptio

Europe is fading. After falling from the cultural burst of the 19th century’s Mitelleuropa directly into Inferno, western Europeans covered themselves with a veil of delusion which is now revealing to be only a drag, stretched enough just to cover the shame, and unable to protect them from a changing world. Convinced they found the secret way to prosperity and peace, inebriated by Bismarck’s legacy, and overlooking (sometimes even denying) the flames of Hell that were still burning on the other side of the curtain, they believed in a new life after WWII, mentally away from the dreadfulness witnessed by the world during the first half of the century. In a quasi-religious manner, they still eager for an Eden, an earthly reward for all that former suffering. However, history never ends, and those who prefer to ignore this fact engage in an existence on the edge of oblivion.

It’s true that the western civilization barely survived the widespread paranoia that almost destroyed it within a century and it’s not easy to deal with that. Wherever we look, there are signs or memorials to assure us that the scars are not forgotten neither healed. Those could be the perfect altars for the Memory, but the European man insists on living in the present. He has no past; he refuses to look over his shoulder, maybe fearing that at the same time he will be facing the future. And there is no comfort in the modern efforts of association, because it reminds us some (not so) ancient catastrophes sustained by bureaucracy and centralization.

What may be the problem with Europe, what is giving rise to this long romantic opera’s libretto (if not Romantism itself)? Is its past a burden too heavy to hold?, not only its dark history but also its glorious achievements? What is left for a culture that already nourished Mozart’s Jupiter, Beethoven’s Seventh and Wagner’s Ring? As Lou Reed puts it (with a pessimism and humility so rarely seen in the pop environment, with all its celebration of the lower culture and refusal of higher standards): you can’t be Shakespeare and you can’t be Joyce, so what is left instead? There’s not much left, indeed. To worsen the situation, Europe collapsed from hysteria and then fell on the last inner circle of Hell. And, once in Hell, there is no redemption. Quia in Inferno nulla est redemptio. That, above all, is Europe’s tragedy.

Carlos M. Fernandes, Berlin

Carlos M. Fernandes, London

Carlos M. Fernandes, Berlin

Carlos M. Fernandes, Krakow

Carlos M. Fernandes, Berlin

Carlos M. Fernandes, Berlin

Carlos Miguel Fernandes



A ler: Madalena Lello sobre a Irlanda.

E, a propósito, um livro que encontrei num alfarrabista de Granada. Ireland, de Dorothea Lange, primeira edição de 1996.

Carlos Miguel Fernandes


P, de Fotografia

A P4Photography já tem endereço em Espanha, a juntar aos de Nova Iorque e Lisboa. Em Granada. Aqui.

(La galeria P4photography ya tiene dirección postal en Granada, España. Haga clique aquí.)

Carlos Miguel Fernandes


Victor Palla

Mais um excelente trabalho do Luís Trindade e da P4Photography (sim, o meu comentário não é imparcial): leilão do espólio de Victor Palla, na P4Photography, dia 29 de Maio. Fica aqui o texto do Alexandre Pomar.

VICTOR PALLA [1922-2006]

Arquitecto e fotógrafo, com obras de referência em ambas as áreas, Victor Palla foi também pintor, ceramista, designer gráfico, editor, tradutor, galerista, agitador de ideias e animador de muitas iniciativas. “Lisboa Cidade Triste e Alegre”, que expõs e publicou em 1957-1959, em colaboração com Costa Martins, foi uma pedrada no charco no panorama da fotografia portuguesa. Redescoberto e redistribuído em 1982, por António Sena e a associção-galeria Ether, o livro tem vindo a ser internacionalmente valorizado como uma das realizações editoriais mais significativas do seu tempo, nomeadamente por Martin Parr e Gerry Badger, na sua história do livro fotográfico, «The Photobook», em 2004.
Para além dessa obra, porém, as fotografias de Victor Palla continuaram a ser pouco conhecidas, em especial quanto à sua vertente mais experimentalista e ao cruzamento com as inquietações do artista plástico ou as actividades do arquitecto e do designer, que foram as suas outras carreiras paralelas. Essa vertente experimental foi ensaiada logo no início da década de 50 e voltou a estar muito presente em várias exposições realizadas a partir dos anos 80, com destaque para “Objectiva 84” da Festa do Avante ou a individual “A Casa”, em 2000, no Centro Cultural da Gulbenkian, em Paris.

Victor Palla nasceu em Lisboa em 1922 e aqui faleceu também em 2006, com 84 anos. Começou por estudar arquitectura em Lisboa, antes de se transferir para o Porto, onde se diplomou. Ainda como estudante, logo em 1944, dirigiu a Galeria Portugália e foi um dos dinamizadores das Exposições Independentes, onde expôs pintura ao lado de Fernando Lanhas, Júlio Resende, Nadir Afonso e Júlio Pomar. De regresso a Lisboa, participou nas Exposições Gerais de Artes Plásticas em quase todas as edições entre 1947 e 1955, com obras de desenho, pintura, artes decorativas, escultura e fotografia.
Em 1973 fundou a galeria Prisma com Costa Martins, Rogério de Freitas e Joaquim Bento de Almeida, onde expôs pintura no ano seguinte. Além das inúmeras mostras colectivas em que participou, fez outras exposições individuais na Galeria de Arte Moderna da SNBA, em 1977; Diagonal, 1983; Diário de Notícias, 1984. (MAIS?)

A partir do início da década de 50, Victor Palla foi um dos modernizadores da arquitectura portuguesa, seguindo os princípios funcionalistas do Estilo Internacional com particular radicalidade plástica, sob influência brasileira. À intervenção teórica e de divulgação em revistas (algumas sob a sua direcção) juntaram-se obras como a escola do Vale Escuro, de 1953, projectada com Joaquim Bento de Almeida. Com atelier conjunto durante 25 anos, a dupla de arquitectos teve acção relevante na renovação dos espaços comerciais de Lisboa, em paralelo com Keil de Amaral e Conceição Silva. Em especial, ficaram a dever-se-lhes os novos cafés e snack-bares Terminus, Tique-Taque, Suprema, o antigo Pique-Nique, no Rossio, e o Galeto, já em 1966. O seu talento multifacetado está presente no dinamismo espacial e material dos volumes arquitectónicos, conjugado com o design inovador do mobiliário e da iluminação, adequados aos novos consumos da «vida moderna».

O design gráfico e a edição foram outras áreas em que Victor Palla se distingiu desde muito cedo, com trabalhos importantes para criação de um gosto visual moderno. Em 1952, frequentou o Publishing and Book Production Course em Londres, criando a seguir a famosa colecção de bolso “Os Livros das Três Abelhas” e as edições Folio, ambas com José Cardoso Pires. Fundou com Orlando da Costa, o Círculo do Livro e, entre outras actividades de editor, autor, tradutor e capista, realizou o plano gráfico da editorial Arcádia.
O Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian dedicou a Victor Palla uma retrospectiva fotográfica em 1992, e o Centro Português de Fotografia atribuiu-lhe o Prémio Nacional em 1999.
Alexandre Pomar


I Encontros de Fotografia de Granada

Ainda não tive tempo para ver todas as exposições dos I Encontros de Fotografia de Granada, mas gostei do que vi no sábado passado. Estamos a falar de um Festival periférico, acabado de nascer, mas que revelou uma organização madura e matéria-prima com qualidade. Gostei também de ver o NAF representado na projecção de sábado, com o trabalho do nosso colega Nuno Matos. O melhor da festa foi, até agora, o pequeno livro de Laura Covarsi (Badajoz, 1979), que pode ser comprado aqui.

Portugal teve um lugar de destaque na projecção de Luísa Monléon (Zaragoza, 1979). A fotógrafa espanhola (novo talento FNAC 2008) mostrou-nos um retrato sombrio de Portugal, com fugazes raios de luz. Há um claro contraste com a imagem que os portugueses têm do seu país, tantas vezes visto com um lugar de sol e alegria, mas que é olhado, desde esta Espanha eufórica e colorida, como a parcela mais melancólica da península. O fado, escutado com muita atenção deste lado da fronteira, reforça essa visão escura, e talvez certeira, do “país das praias”.

Carlos Miguel Fernandes


Fotografia em Granada

Os I Encontros de Fotografia de Granada começam na noite da próxima quinta-feira. Todas as informações aqui.

Carlos Miguel Fernandes



(Tem som...)

Carlos Miguel Fernandes


Nova Página

A nova página do Núcleo de Arte Fotográfica já está disponível no endereço: http://www.nucleoartefotografica.com/

Lá poderão encontrar informações sobre as actividades do Núcleo e sobre os cursos de fotografia.



BES Photo

Como já todos devem saber, a nova edição do BES Photo já se encontra em exposição no CCB. Não vi, e provavelmente não irei ver, pois estou a 750km de distância. Mas deixo-vos com ligações para dois textos que opinam sobre a mostra. Opiniões distintas:
no blogue do Alexandre Pomar,
no Grand Monde.

Adenda: Miguel Soares foi o vencedor do prémio deste ano.

Carlos Miguel Fernandes


Uma ou Duas Fotografias

Desde hoje, e até 7 de Maio, a P4Photography apresenta na sua galeria da Rua dos Navegantes, em Lisboa, algumas obras do seu acervo. Francisco Borba, João Cutileiro (sim, esse), João Mariano, José Afonso Furtado, José Cabral, Luís Trindade, Manuel Joaquim Florenço (um nome da Fotografia portuguesa do início do século XX que merece ser mais conhecido), Maria José Palla, Valter Vinagre, Hans Peter van Velthoven e um tal de Carlos M. Fernandes (que participa com a prova Kaluptein n.5, impressa em 2001, e a fotografia Thingvellir(2006), que esteve no ano passado na exposiçao INGenuidades, em Lisboa e Bruxelas) são os nomes presentes na mostra.

Carlos Miguel Fernandes


Mundos Artificiais e Artefactos Naturais

A Madalena Lello convidou-me para escrever um texto para o Saisdeprata-e-Pixels, na sequência dos seus textos sobre Fotografia Científica. Aqui está ele.

Carlos Miguel Fernandes


Photography Exhibition in Malaga, Spain

(Não se surpreendam com os textos em inglês que a partir de agora possam surgir no blogue. Vou mostrar aqui os textos/notícias que escrevo para a P4Photography, e quando não houver tempo para traduções, como agora, publico-os na língua oficial da referida página. Peço desculpas antecipadas por qualquer "pontapé na gramática inglesa" que venha a ser dado. Afinal, não é a minha língua materna!)

De Lo Humano – Fotografia Internacional 1900-1950. This is the name of the exhibition on display in Málaga’s Picasso Museum, until May 25. Curated by Ute Eskildsen, De Lo Humano follows a long line of humanistic exhibitions inspired by the celebrated Family of Man (commissioned by Edward Steichen in 1955, at Museum of Modern Art, New York). Eskildsen gathered 111 images, mostly portraits and self-portraits, from 68 photographers. The aim of De Lo Humano is to provide a journey through Photography’s representation of human being, an overview of men’s fascination with Man during the first half the XX century, after Kodak’s “democratization” of the medium. The core theme is centered on the human image, but the exhibition gathers rather different approaches to the subject: the pictorialism of Steichen and Alvin Langdon Coburn, Lászlo Moholy-Nagy and Man Ray’s experimentalism, the lively streets photographed by Henri-Cartier Bresson and Robert Frank, August Sander’s portraits of German society. André Kertesz, Alexander Rodtchenko, Imogen Cunningham, Cecil Beaton, Brassaï and many others also contributed to De Lo Humano – Fotografia Internacional 1900-1950.

Carlos Miguel Fernandes


É o Fim do NAF?

Em breve discutiremos o assunto no blogue. Para já, está dito aqui o que é para ser dito. Aproveitamos para agradecer ao Sérgio B. Gomes a referência a este problema que se avizinha.

O NAF (Núcleo de Arte Fotográfica) do Instituto Superior Técnico é um sigla mágica de grandes tradições. Por ele passaram todos os estudantes do Técnico (e doutras escolas) com veleidades fotográficas. Alguns tornaram-se grandes profissionais da arte e engenho da fotografia. Foi também no NAF (então Secção Fotográfica da AEIST) que nos meus tempos de estudante - já lá vão quatro décadas - aprendi os rudimentos da revelação e vi nascer a minha primeira imagem latente. Nessa altura, os meus interesses eram químicos, não fotográficos. Como de propósito, aquela Secção Fotográfica estava cravada na ilharga do Pavilhão de Química. Já havia olhares cobiçosos sobre espaços alheios, mas fotógrafos e químicos coexistiam em serena harmonia. Lembro-me de descer a escada lateral do Laboratório de Química Analítica (que Deus tenha!) e de voltar à direita para entrar pela portinha mágica que dava acesso à câmara escura.
Jorge Calado, Engenhos e Visões

Carlos Miguel Fernandes



Carlos Miguel Fernandes



Depois de passar uma tarde inteira a devorar as (e a ser ”devorado” pelas) paredes da ARCO (feira de arte de Madrid), soube-me bem descansar os olhos na simplicidade formal da exposição de Paul Graham (n. 1956, Inglaterra) na Galeria La Fabrica (Calle Alameda, 9, junto ao Passeio do Prado). Chama-se A Shimmer of Possibility, título, também, de uma série mais extensa e recentemente publicada em doze magníficos livros, os quais tive a oportunidade de folhear em Madrid. A exposição que está na La Fabrica é constituída por quatro polípticos e duas imagens solitárias de grande formato. Um trabalho assim pede uma montagem criativa, e esta cumpre, fugindo da habitual rigidez, quase asséptica, dos trabalhos apresentados em galerias de arte. No entanto, sobriedade não lhe falta. Excelente!

Na página da galeria podem fazer uma visita virtual à exposição.

Paul Graham

Na ARCO, a principal descoberta foi esta galeria de Berlim: a Kicken Berlin. Vi provas vintage de Kertesz, de Friedlander e do casal Becher. Só isso bastaria para justificar a ida a Madrid.

Carlos M. Fernandes


Literatura e Fotografia - Lorca

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de río.
¡Mira qué orilla tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.

Federico García Lorca, Pequeño Vals Vienés


O Grupo IF

Descobri estes comentários do Manuel Magalhães ali em baixo, no texto sobre o Grupo IF. O Manuel Magalhães fez parte do Grupo e encontrou a nossa referência por acaso(?). É por coisas como esta que vale a pena ter um blogue. Destaco a informação: uma exposição do Grupo IF será inaugurada no dia 18 de Maio de 2008 no Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto!

Foi com enorme surpreza e simultaneamente com um certo contentamento que encontrei esta referência ao Grupo IF (ideia e forma), de que fiz parte e que até certo ponto aindo faço parte. É verdade, que o José Carlos Principe está nos Estados Unidos, como professor e investigador numa universidade americana, aliás, parece, que com grande sucesso em novissimas áreas do conhecimento. O Manuel de Sousa, já faleceu. Todos os outros estão vivos, felizmente e um novo elememento - António Drummond - veio a fazer parte do IF, na sequência do desaparecimento do Manuel de Sousa.
Pela parte que me diz respeito, ao longo de alguns anos de inactividade do Grupo (que vai reaparecer com uma exposição, no próximo ano que será inaugurada no dia 18 de Maio de 2008 no Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto), tenho continuado a fotografar, a expor, consegui editar um livro (ALBUM 1973-2003), e de uma forma geral tenho estado sempre ao corrente do que se vai fazendo na área fotográfica, quer em Portugal quer no estrangeiro. De uma forma geral os elementos que foram/são do Grupo IF continuam a viver e na sua maioria a fotografar, a expor, etc.
Para quem estiver interessado, pode aceder ao meu website http://mmagalhaes.com (peço desculpa, por em algumas partes escritas a clareza da redacção não ser perfeita, mas o site foi desenhado e está sediado no estrangeiro e por vezes houve falta de uma perfeita coordenação e compreensão!!!), onde poderá encontrar algumas das fotografias que fiz e até certo ponto, continuo a fazer. O Luís Abrunhosa, por questões de saude, abandonou a actividade fotográfica. O João paulo Sotto Mayor e o José Marafona, continuam como eu a fotografar, expor, etc. O Henrique Araujo, que regressou, também continua a fotografar!

Grupo IF (ideia e forma) convidado a expor no Museu Soares dos Reis, no Porto.
Fundado em 1976 foi durante anos a maior referência de fotografia colectiva em Portugal. Realizou 11 exposições, na sua maioria de carácter interventivo e contendo na sua essência uma grande visão crítica e satírica da nossa sociedade.
Foi convidado já no século XXI para expor trabalhos seus em Serralves e excertos de vários dos seus conjuntos na galeria da Biblioteca Almeida Garrett "Um dia no Museu" constituirá a sua abordagem às diversas vivências que constituem esse pequeno universo que dá o nome à própria exposição.
A inaugurar em 18 de Maio--Dia Internacional dos Museus, estará patente ao público na sala de exposições temporárias até Agosto.
Integram este trabalho: António Drummond, Henrique Araújo, João Paulo Sotto Mayor, José Marafona e Manuel Magalhães



(Vou copiar descaradamente o texto do Sérgio B. Gomes, porque não há nada a acrescentar, e porque posso assumir o discurso na "primeira pessoa": sou também um dos sócios fundadores da Associação Portuguesa de Fotografia.)

Foram eleitos no domingo os órgãos sociais da Associação Portuguesa de Photographia (APPh), associação da qual fui um dos fundadores e da qual faço parte.A estrutura da APPh ficou distribuida assim:

presidente: António Barreto (sociólogo, coleccionador, fotógrafo)
vice-presidente: Vitória Mesquita (chefe da Divisão Documental Fotográfica do Instituto Português de Museus)
secretário-geral: Ângela Camila Castelo-Branco (documentalista da RTP, coleccionadora)

presidente: José Pessoa (funcionário da Divisão Documental Fotográfica do Instituto Português de Museus)
vice-presidente: Alexandre Ramires (professor, coleccionador, investigador)secretário: António Faria (coleccionador)

Conselho Fiscal
presidente: João Clode (médico, coleccionador)
vice-presidente: Madalena Lello (gestora, divulgadora)
vogal: Carlos M. Fernandes (professor, fotógrafo)

António Pedro Vicente (historiador, professor e investigador) e João Loureiro (jurista) são os restantes sócios-fundadores.Os primeiros projectos a realizar pela APPh estão ainda em plena ebulição, mas aqui fica a letra aprovada nos estatutos que pretende muitas coisas, menos ser letra morta:

Art. 2.º
A APPh., sem propósitos de especulação comercial nem fins lucrativos, tem como objectivos o estudo histórico e o progresso científico e artístico da fotografia nas suas implicações técnicas, históricas e sociológicas e aplicações científicas e artísticas, designadamente:
a) A investigação sociológica e histórica da imagem fotográfica; a memória fotográfica e a sua preservação, tendo também em conta as novas tecnologias (digitais) e o que tal implica; a aplicação de métodos de inventariação e catalogação com base nas ciências documentais; a investigação estética e artística inclusivamente na fotografia contemporânea.
b) Contribuir para o esclarecimento da importância da fotografia na memória colectiva, nomeadamente a sua componente sociológica e o seu lugar nas ciências documentais.
c) Dignificar o património fotográfico nacional, apoiando iniciativas com o mesmo fim e combatendo energicamente as arbitrariedades, o desleixo e o abandono do património fotográfico nacional.
d) Estimular organização de uma biblioteca e centro de documentação que se proponha a execução de biografias e a recolha de documentação actual dos agentes da fotografia em Portugal (fotógrafos, investigadores, historiadores, etc.), com preocupações futuras.e) Organizar exposições, cursos, conferências, colóquios e consultoria.
f) Contribuir para o fomento do ensino da fotografia em todos os níveis e graus de ensino.



Faltam poucos dias para a inauguração da segunda exposição da Galeria P4Photography. É na quinta-feira, dia 10 de Janeiro, pelas 19 horas. Chama-se Telegram e mostra-nos 14 imagens de Filipe Casaca e Nuno Direitinho, seleccionadas, sequenciadas e "emparelhadas" pela equipa da P4. Tal como aconteceu com Atlas, será editado um livro para complementar a exposição (50 exemplares numerados). O texto escrito para esse livro está pronto e podem lê-lo aqui em baixo (há ainda uma contribuição do António Júlio Duarte). Seguindo a política da casa, foi escrito em inglês. Se houver tempo faremos uma tradução.
(Quem ainda não visitou Atlas tem agora poucos dias para o fazer.)

Leaving and Returning Home

The first thing God created was the journey; then came doubt and nostalgia. With this sentence, Theo Angelopolous summarizes one of the founding epics of western civilization. With the Trojan War over, Ulysses was ready to return to Ithaca but a sequence of unexpected events kept him away from home for another ten years. After many stops and incidents, Ulysses reached Ogygia island. There he became Calypso’s lover and her prisoner. Despite promises of eternal life, despite being attracted to Calypso, and even though he happily shared her bed, Ulysses never forgot Ithaca and mourned every day for his lost home and family. After seven years of confinement, not yet convinced of Calypso’s love and by Ogygia’s vita beata, Ulysses was free to leave the island and return to Ithaca. Between a pleasant life at Ogygia and a dangerous journey back home, Ulysses chose home. As Milan Kundera wrote, Instead of the passionate exploration of the unknown (the adventure), he preferred the apotheosis of the familiar (the return). Instead of the infinite (because any adventure is supposed to go on forever), he preferred the end (because returning home is a reconciliation with life’s finitude).

When Francis Frith captured the exotic ambience of Middle East lands in his celebrated albumen prints, the journey became one of photography’s central themes. If the portrait was sought as a way of keeping and remembering the faces of loved ones (or simply lost youth), travel photos were artifacts that astonished the cosmopolitan citizens of the world centers of the photographic art: London, Paris, New York, Boston. In some countries, due to their geographic situation, history and culture, photographers engaged more seriously with the journey’s theme. English photographers like Frith took advantage of their country’s presence in the Middle East to record powerful images of the mythical civilizations that had flourished on the rich eastern Mediterranean lands. The United States, with its overwhelming and wild open spaces, saw the birth of landscape photography, via the eyes of such artists as Carleton E. Watkins, Timothy O’Sullivan or the Portuguese jew Solomon Nunes de Carvalho, amongst many others. (Later Ansel Adams reclaimed those pioneers’ inheritance). In the 20th century, Walker Evans, Robert Frank and Lee Friedlander followed the same trails, but this time they did it by car. Finally, if there is such a thing as a Portuguese photography, the journey is undoubtedly its core.

Filipe Casaca and Nuno Direitinho belong to a generation that grew up in an age when travelling is no longer a luxury, but became another middle-class conquest, instead. The world has become smaller: everyone is connected by broadband internet and mobile phones. Remote places became easily accessible and Ulysses’ anxiety and long journey back home do not make sense any longer. Homesickness, nostalgia, saudade: these feelings have not vanished from humanity’s soul; but they are now more easily appeased.

Does this mean that the journey that began in the sands of Egypt is over? Maybe it is over or maybe not. The two defining pictures of the pyramids in Paulo Nozolino’s Penumbra show that the world is infinite and that only the spectators’ imagination and creativity may end.

Photography has not returned home. It is just the concept of home and private space that have expanded their limits. Telegram moves along this blurred borderline, showing us not only the dialogue between the authors’ images, but also their engagement with this contemporary and broad sense of home.